As crises convulsivas podem se apresentar de diversas formas.
A convulsão onde o paciente cai no chão e se bate todo, é facilmente reconhecida por todos.
O problema está em reconhecer os outros padrões de crises.
Quero abordar as crises em vários textos, pois é um tema muito amplo.
Neste texto quero falar sobre a crise convulsiva de ausência!
Nesta crise o paciente ficará por alguns segundos parado, com olhar distante.
Pode ser confundido com déficit de atenção ou distração.
Como a crise de ausência é rápida, dura em média 40 segundos pode passar desapercebida pela família.
Alguns trabalhos referem que só quando o paciente apresenta um número muito elevado de crises, a família percebe o fato com estranheza.
Enquanto o número de crises ao dia for pequeno, a família não costuma perceber. Não é um padrão reconhecido como crise convulsiva.
Na prática essa criança fica parada no tempo, sai fora do ar, não cai no chão. Se está em pé normalmente permanece em pé, se está sentada permanece sentada.
Pode deixar cair um objeto que está segurando, tipo um copo.
O olhar fica perdido, parece fixo no infinito.
A criança costuma despertar desse momento com uns piscamentos oculares, o que faz todos pensarem que ele estava "sonhando acordado".
Neste caso o EEG é fundamental, e deve ser realizado antes do inicio da medicação.
Nas crises de ausência a alteração captada no EEG fecha o diagnóstico.
É o tipo de crise que costuma responder muito bem a medicação, e o neurologista não tem dificuldade para escolher o remédio adequado.
As crises de ausência são classificadas como um tipo de epilepsia.
Epilepsia não é tudo igual !
Existem vários tipos, com evolução diferente para cada tipo.
Na suspeita de algo estranho, episódios que se repetem onde a criança fica alheia ao meio, está indicado uma avaliação.
Hoje com celulares que filmam, usem! Filmem o que você achar estranho, um tique, uma mania!
Muito melhor a imagem do que o relato da família. Facilita em muito o diagnóstico.
Dra. Cristine Aguiar
Neuropediatra

Crise convulsiva febril é um tema simples mas acho que de grande interesse à todos os pais.
O ser humano possui controle de sua temperatura, o cérebro exerce essa função. Nossa temperatura corporal fica em torno dos 36C.
A criança ao nascer não possui várias funções cerebrais adequadas, inclusive o controle da temperatura corporal.
Aqui no Ceará recém nascido usa luvas e sapatinhos, vive empacotado.
Ao crescer vai sendo desnecessário esses acessórios.
Mas ao ficar com febre os pais percebem que a cabeça fica muito quente mas outras partes do corpo não.
Fato comum, pois o aumento da temperatura não é bem distribuído pelo corpo, deixando partes quentes, e outras até frias.
Exatamente por essa má distribuição do aumento da temperatura as crianças podem apresentar as crises ou convulsões febris.
Ocorre em crianças pequenas, menores de 5 anos.
Aos 5 anos o cérebro já possui essa função amadurecida.
Alguns pais acham que a convulsão acontece apenas com febre alta, isso é um engano pode ocorrer com febre baixa se houver uma variação rápida da temperatura.
Todas as crianças pequenas poderiam pela imaturidade do sistema nervoso apresentar crises na vigência de febre, porém o que vemos são vários casos em algumas famílias. A predisposição genética de algumas famílias é bem marcante.
O neuropediatra deverá solicitar o EEG, que neste caso deverá ser normal. Para confirmar a convulsão febril.
Alterações no EEG já nos direciona para outro diagnóstico.
O EEG deve ser realizado após uns alguns dias da crise, não deve ser realizado muito próximo a crise.
Mesmo a crise sendo febril deverá ser tratada, comumente após 3 crise rápidas e em episódios diferentes orientamos medicação.
Ou seja, mesmo com EEG normal a criança muitas vezes necessita fazer uso da medicação.
Isso porque a repetição de crises mesmo que febris pode prejudicar a criança e devemos evitar danos cerebrais sempre que possível.
Colocamos o tratamento medicamentoso de duas formas: continuo ou intermitente.
Continuo: a criança faz uso de medicação de horário todos os dias, quando ficar doente por já fazer uso da medicação, já está protegida. Desvantagem importante neste caso é que a criança usa medicação durante períodos afebris onde não iria ter crises e por isso não necessitava da proteção.
Intermitente: a criança faz uso da medicação nos períodos de doenças, inicia a medicação nos primeiros sintomas. É necessário ter iniciado a medicação antes do aparecimento da febre. Possui a vantagem de só fazer uso da medicação nos períodos onde correria o risco de ter crise febril. Desvantagem é que se a febre for o primeiro sinal da doença, a criança não iniciou a medicação e portanto não está protegida de crises.
Seu neuropediatra vai escolher qual a melhor opção de tratamento analisando caso a caso.
Não podemos esquecer que todas as mães devem fazer uso de termômetro e não do tato para verificar se a criança está com febre.
Usar o antitérmico em dose adequada ao peso da criança e lembrar que ao administrar a medicação antitérmica por via oral o tempo para o inicio do seu efeito é variável.
A medicação feita por via oral só iniciará seu efeito ao ser absorvida, se a criança estiver alimentada esse tempo de absorção aumenta.
Por este motivo orientamos o uso de meios físicos, água!
O álcool muito usado no passado não deve ser usado, por ser muito volátil. A criança inala muito o que pode provocar efeitos indesejados e prejudiciais a saúde.

A criança não é responsável por seus atos!
Não tem a menor ideia para que serve um remédio, ou um tratamento.
Normalmente come o que gosta e recusa o que não gosta, simples assim.
Se gostar do gosto do remédio toma, se não gosta não quer tomar.
Precisamos ponderar alguns pontos aqui.
Primeiro, a criança não pode decidir um tratamento e não pode ser responsabilizada pela ausência de medicação.
Deve ser informada com jeito pelos pais sobre o tratamento, que o remédio é para ela melhorar.
Mas os pais não podem esperar o consentimento da criança para instituir um tratamento.
Na neurologia lidamos com doenças graves, que deixam sequelas para uma vida toda se não tratadas adequadamente.
A recusa no uso de medicação não é incomum, gera um drama familiar!
Vivemos um momento onde as crianças estão se impondo cada vez mais, querem ditar as normas, impor seus horários. Um verdadeira inversão de valores.
Nesta situação os pais devem comunicar a recusa ao médico, e devem ser por ele alertados dos danos a saúde da criança pela ausência da medicação.
Deixem as crianças serem crianças, com problemas de crianças.
Assumam o papel de responsáveis. Os pais devem se preocupar com horários, em levar a medicação numa viagem.
Caso a criança colabore ótimo, maravilha!
Mas não podemos contar com isso para realizar um tratamento.
Infelizmente doença não tem nada de bom, gera sofrimento e na neurologia muitas limitações.
Todos queremos ser felizes! Queremos ver nossos filhos felizes!
Ver um filho sofrendo é quase uma morte para uma mãe.
Seu filho não tem o direito de decidir, ele depende de você !
Seja firme e se possível doce, mas nunca omissa.
Dra. Cristine Aguiar
Neuropediatra
Atualmente é imenso o número de pessoas alérgicas, e a rinite alérgica se tornou quase o padrão da normalidade.
A criança esfrega o nariz, espirra e ao ser questionada a mãe responde apenas " Ele tem rinite"
Colocam a rinite como sendo uma característica da pessoa, e não uma doença.
É uma alergia respiratória comum. Mas necessita de tratamento, como é alérgica não tem cura e sim controle.
Impossível nos dias de hoje evitar por completo a poluição, mofo, poeira. Mas não tratar é um outro absurdo.
Boca não é órgão respiratório, usamos para respirar quando não conseguimos usar o nariz. Mas ao usar um órgão inadequado vamos pagar um preço, e alto.
O nariz realiza a função de aquecer, umidificar e filtrar o ar, a boca não realiza essas funções.
Assim as infecções de garganta serão mais frequentes, os distúrbios do sono aparecerão e por consequências várias alterações na criança.
Porque estou falando sobre esse assunto?
Porque a criança vem ao neurologista por causa do sono agitado, ou bruxismo.
Ao examinar a criança percebo a respiração bucal e ao solicitar o exame do sono ( polissonografia ) faço o diagnóstico de SAOS.
A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono é causada pelo uso da boca para realizar a respiração durante o sono.
Quando dormimos relaxamos a musculatura, quem estiver usando a boca para respirar terá momentos de obstrução da passagem do ar pela língua.
Nas crianças a causa mais comum é a rinite alérgica associada a hipertrofia de adenoides.
Feito esse diagnóstico o neurologista encaminha a criança ao otorrino ou alergologista, que vai avaliar a melhor forma de tratamento.
Nos dias atuais a grande maioria terá indicação de tratamento clinico, a cirurgia é bem menos indicada do que no passado.
Pode não ser cirúrgico, mas tem que ser tratada!
A idéia que ao não ser necessário cirurgia não é necessário tratamento é equivocada.
Se atrapalha o sono, se faz a criança usar a boca para respirar deve ser tratada! Mesmo não sendo cirúrgico.
Já existem trabalhos comprovando elevado índice de SAOS em crianças com baixo rendimento escolar em relação a população geral.
Essa relação entre qualidade do sono e capacidade cerebral já está bem estabelecida.
O individuo tem que ser avaliado como um todo, e a criança deve dormir como anjo!
Dra. Cristine Aguiar
Neuropediatra

O sono merece toda a nossa atenção.
Durante o sono nós descansamos o corpo e a mente.
Durante a maior parte do sono estamos descansando o corpo, mas nosso cérebro está funcionando.
Nossos sonhos, onde misturamos coisas aparentemente sem sentido, é um período de intensa atividade cerebral.
Atualmente temos especialistas do sono, neurologistas que se dedicam apenas ao estudo do sono.
As pessoas acham que é um processo simples: ficamos sonolentos, dormimos e acordamos.
Nada disso!
Existem várias fases do sono e vários distúrbios do sono.
A polissonografia é o exame solicitado para se estudar o sono. O paciente vai dormir uma noite na clinica, ou seja no laboratório do sono.
Neste exame é visto a respiração, os movimentos e as ondas cerebrais durante todo o sono.
Será visto o ronco, o ranger de dentes (bruxismo), pequenas pausas na respiração, além de diversas outras alterações possíveis.
Precisamos dar ao nosso cérebro o descanso necessário, um sono adequado em quantidade e qualidade.
Caso exista alterações do sono o paciente vai apresentar sintomas na noite, mas também durante o dia.
Todo mundo sabe que após uma noite mal dormida ficamos sonolentos, irritados e sem paciência. É fácil perceber a dificuldade que temos em realizar nossas funções diárias.
Fácil para quem tem uma noite mal dormida, mas para quem dorme mal todos os dias não.
Quem dorme mal todas as noites não consegue perceber o padrão da normalidade, acha que o que possui de atenção e humor é o normal.
Na infância podemos ter crianças mais agitadas, desatentas durante o dia.
Muito comum apresentar baixo rendimento escolar, a sonolência diurna não é muito comum.
Na infância as causas respiratórias são as mais encontradas, tipo rinite alérgica e hipertrofia de adenoides.
No adulto encontramos diversas causas mas a obesidade é um fator importante.
No bebê muitas vezes precisamos ensiná-lo à dormir, pois não possui um padrão de sono-vigília bem estabelecido. Dorme de dia e deixa os pais acordados à noite.
A presença de ronco é um sinal de alerta para se procurar o especialista.
Não é normal roncar, e principalmente na infância.
Temos muitos problemas com as crianças para fazer elas dormirem, é necessário estipular horário para dormir.
A criança vai dormir tarde e tem que acordar cedo para escola, com isso possui quantidade insuficiente de horas de sono.
Durante a consulta os pais vão receber orientações sobre higiene do sono e será solicitado o exame, se o neuropediatra achar necessário.
Em todas as crianças com baixo rendimento escolar devemos avaliar o sono.
Dra. Cristine Aguiar
Neuropediatra
Água!
As crianças pequenas bebem muita água, pedem água.
A medida que vão crescendo vão esquecendo deste hábito tão importante.
Na nossa região onde o calor é constante, esse hábito deve ser incentivado.
A água é mais importante nos períodos de menor umidade do ar e com temperaturas elevadas.
Os adultos se esquecem de beber água.
Nas crianças que fazem uso de medicação que será excretada na urina, é importante termos um volume adequado de urina.
Os sucos de frutas, água de coco podem ser usados, apenas os refrigerantes não deveriam estar presentes.
Na verdade se a criança não tomar refrigerante no inicio da infância dificilmente ele vai gostar do refrigerante numa idade maior. Tudo é hábito!
Durante o tratamento com medicações de uso continuo é importante checar a função renal e hepática.
O remédio controlado é considerado vilão, mas na maioria das vezes é o mocinho.
Quando a família realiza consultas regulares, numa frequência de 3/3 meses, esse aspecto será avaliado pelo seu médico.
As consultas são realizadas para ajustes de medicação, mas também para avaliar o tratamento e evitar efeitos colaterais.
Exames de rotina devem ser solicitados mesmo sem qualquer queixa pelo paciente.
A neuropediatria necessita de adesão ao tratamento, isso significa consultas regulares e uso regular da medicação prescrita.
Dra. Cristine Aguiar
Neuropediatra

Quando falamos que a criança está crescendo, essa afirmativa é verdadeira. Mas nos dá uma ideia de estatura!
Quero corrigir essa ideia.
A criança está crescendo sim! No tamanho, na sua capacidade de atenção, no seu raciocínio lógico, na linguagem ou seja em todas as suas capacidades intelectuais.
A criança que possui deficiência intelectual também está crescendo, no tamanho e em suas capacidades.
Apenas não possui a velocidade desejada para a idade e nem a capacidade ideal para ser explorada.
Possui uma capacidade sim, aprende sim!
E se não fosse assim não haveria motivo de realizar todas as terapias indicadas.
Essas terapias são formas de ajudar essa criança a desenvolver toda a sua capacidade.
Vou contar aqui uma história que me fez escolher a neuropediatra como especialidade médica.
Na Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará, tive com professora de prática na pediatria uma verdadeira mestre!
Dra. Fatima Azevedo, geneticista.
Eu sempre fui muito falante e comunicativa, sempre participei muito nas aulas. Perguntando e questionando muito.
Fiquei impressionada como Dra. Fátima conseguia falar e mostrar os sinais das doenças sem ser ofensiva com a criança, sua sutileza e a escolhas das palavras fazia a criança se achar especial.
Especial de forma positiva, especial porque tinha algo raro! Era mágico!
Porém nas últimas semanas de estágio ela veio falar comigo. Me questionou porque eu havia mudado, porque não participava mas das aulas e nem perguntava nada.
Inicialmente fiquei surpresa, mas falsidade nunca fez parte do meu ser. Respondi prontamente:
"Descobri que você não trata nada, não cura nada! Descobre a síndrome e pronto!"
Após breve silêncio, ela me disse:
"Acho que você não entendeu!
Toda mãe, pobre ou rica quando engravida idealiza um filho perfeito.
Compra roupas e monta um quarto na medida das suas condições mas sempre com o melhor.
Agora seu filho chegou! Mas ele não é aquele bebê sonhado, é outro!
Desse bebê as pessoas só sabem dizer que ele é doente, que é retardado!
Essa mãe ama seu filho, mas não sabe se ele vai falar, se vai andar, se vai para a escola.
Eu sou a pessoa que vai responder tudo isso, e quem vai ajudar a desenvolver a capacidade que seu filho tem.
Você acha isso pouco?"
Uma das maiores lições de vida que recebi, e divido aqui com vocês!
Conseguir segurar uma colher pode ser pouco para você mas é uma grande vitória para muitos!
Dra. Cristine Aguiar
Neuropediatra